A Última Entrevista Que Eduardo Mondlane Deu Em Vida

Texto de Ania Francos
Publicado na Revista Jeune Afrique, 1969

Eduardo Mondlane, poucas horas antes do seu regresso a Dar es Salaam, onde viria a perder a vida concedeu-me uma entrevista. Acabava de participar na Conferência de Apoio à Luta dos Povos Árabes, onde chefiou a delegação da Frelimo. Pretendia saber o que ele, Cabral e os outros dirigentes dos movimentos africanos de libertação, que acabavam de se reunir pela primeira vez com os dirigentes da Fatah, pensavam da sobre a resistência palestiniana. Ele mandou-me entrar na sua sala e acabava de fazer as malas. A sala estava repleta de brochuras em espanhol e em inglês sobre a Palestina. Jovens do Frelimo, parados à volta da sua cadeira, seguiam os seus pequenos movimentos, obviamente em alerta. A bondade da personagem, a aparência de um académico sofisticado escondiam mal o aspecto fundamentalmente voluntário e uma inclinação para o autoritarismo.

Trazia uma máquina fotográfica alemã. Ele brincava com ela, fingia fotografar-me, para esconder, pareceu-me, que, apesar da sua lentidão, da elegância dos gestos, ele não parecia bem a vontade. Talvez porque ele soubesse que eu tinha amigos no movimento dele, pessoas que às vezes o contestavam. E estava de guarda e, a propósito, falou uma palavra de espírito a mais de um dos seus camaradas das colónias portuguesas. Ele parecia mais um diplomata, irónico, um pouco blasfemo, do que um líder da guerrilha, um doutrinário. Aparentou uma espécie de desconforto.

Porquê veio a esta conferência?

Em primeiro lugar, porque estive, na semana anterior, em Cartum, onde se realizou a Conferência de Apoio aos Movimentos de Libertação de África. E depois porque, pela primeira vez, já não se tratava apenas de apoiar os povos árabes, mas sim de apoiar o povo palestiniano. Quando, como nós, lutamos contra o colonialismo, não podemos deixar de apoiar um povo que resiste à ocupação e luta pelos seus direitos nacionais. Antes disso, os palestinianos não conseguem fazer ouvir a sua voz. Havia muita confusão. Os árabes, em geral, falavam em nome deles, e nós estávamos a falar de destruir Israel. Sem explicar o que isso significava…

E você, você tem boas relações com Israel…

Não, não temos relações com Israel. Mas há israelitas em África. Como indivíduos, alguns podem ser nossos amigos. Além disso, na Tanzânia, onde estamos estabelecidos, existia uma cooperação militar entre o exército israelita e o exército tanzaniano. (A propósito, fez-me notar que esta poderia ter sido a razão para a delegação ter sido dirigida por ele assim como a ausência de uma delegação da Tanzânia). Nessa altura, isso teve repercussões. Nós a Frelimo, não temos qualquer relação com Israel. Na conferência, alguns delegados dos movimentos africanos de libertação falaram da cooperação militar entre Portugal, a África do Sul e outros. Os portugueses podem estar a usar metralhadoras Uzis, mas isto vem da França ou da Bélgica.

 

O que pensa da resistência palestiniana?

Lutar por uma Palestina europeia e democrática, onde todos os homens têm direitos iguais sem referência à sua própria religião é a única via razoável. O Estado de Israel é anacrónico, porque baseia-se numa suposta raça ou religião.

 

A luta será mais difícil do que em Moçambique?

Os portugueses têm o hábito de nunca…a metrópole para onde voltar, não os judeus de Israel. Eles vão resistir até ao fim. Não queremos atirar os colonos portugueses ao mar. Tal como os palestinianos não querem atirar os colonos judeus ao mar. Estamos a lutar contra o colonialismo português, não contra o povo português. Os portugueses de origem, nascidos em Moçambique, que queiram viver como cidadãos iguais num Moçambique livre, são bem-vindos.

 

Acusam-vos de ser um agente Americano?

E você, para quem trabalha? Para os russos, franceses ou para os chineses? Toda a gente trabalha para quem quer que seja. Pelo menos para ti, eu trato de Moçambique. Preciso de armas, de dinheiro, e se puder levá-las no Ocidente, fá-lo-ei. E todos o fariam no meu lugar.

 

Sim, mas você fez declarações insultuosas nos EUA contra o Che Guevara, logo após o assassínio dele pela CIA? (Ele tinha-se levantado, completamente fora de si)

Isso não é verdade! Isso não é verdade! Deixe-me explicar. Primeiro, os cubanos sabem hoje que isso não é verdade. Estava numa reunião sobre o Black Power. Uma reunião pública. Pediram-me informações sobre o Guevara. Disse que podia ir para um lugar privado com os estudantes que queriam falar sobre isso. Fomos embora. Conversámos calmamente sobre tudo e nada. Havia uma rapariga a tomar notas. Pensei que fossem notas para ela e, sobretudo, que ela estava a gravar a verdade. E depois, quando estou em Dar Es Salaam, descubro que ela publicou isto num pequeno jornal de imprensa “undergrood” e que ela me está a fazer atacar o “Che”. Um jornalista cubano da Prensa Latina, que era meu inimigo pessoal em Dar Es Salaam, por razões que desconheço, na verdade, escreveu toda a montanha sem sequer verificar comigo…

 

Mas atacou ou não ao Che Guevara?

Nunca. Nunca. Tínhamos divergências sobre a forma como conduzíamos a luta armada, quando ele veio a Dar Es Salaam, fez-nos algumas críticas que achávamos injustificadas. Não acreditamos no foquismo que quis dar ao exército popular. Acreditamos que é necessário um partido, uma organização das massas populares, de onde nasce o exército popular que desencadeia a guerrilha. É uma longa história. Mas o Che Guevara, como homem, como revolucionário, respeitamo-lo. E depois ele morreu heroicamente. Como se pode sujar um homem morto assim?

 

Culpam-te por viajares mais do que ires ao mato?

No mato, não morremos, estamos protegidos pela revolução. É em Paris que tenho medo de morrer. Vejam o que aconteceu ao Ben Barka. A sua própria casa não era segura.

 

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